Os avanços da neurogenética oferecem novas perspectivas para pacientes, enquanto reforçam a importância da interpretação criteriosa e das questões éticas envolvidas.
Segundo os pesquisadores Marco Orsini e Wladimir Bocca, embora a neurogenética represente um dos maiores avanços da neurologia moderna, ela ainda enfrenta desafios importantes. Entre eles está o fato de que nem sempre os exames conseguem fornecer um diagnóstico definitivo. Mesmo com painéis genéticos amplos ou com o sequenciamento do exoma e do genoma, muitos pacientes permanecem sem uma resposta conclusiva.
Outro ponto também destacado pela pesquisadora Eduarda iennaco de Moraes Barbosa é a identificação das chamadas variantes de significado incerto (VUS), alterações genéticas cujo papel na doença ainda não é totalmente conhecido. Essas descobertas podem gerar dúvidas, insegurança e ansiedade tanto para pacientes quanto para familiares.
Acary Souza Bulle Oliveora também ressalta que os testes podem revelar resultados incidentais, identificando predisposição para doenças que não eram o motivo inicial da investigação. Essa possibilidade levanta importantes questões éticas e psicológicas. Além disso, ela lembra que nem toda mutação identificada possui tratamento específico disponível. Em muitas doenças, o exame confirma o diagnóstico, mas ainda não existe uma terapia capaz de modificar sua evolução.
Outro desafio apontado é a relação entre custo e acesso aos exames. Segundo os médicos, muitos testes genéticos continuam com alto custo e nem sempre são cobertos pelos sistemas públicos ou pelos planos de saúde. Eles também enfatiza que a interpretação dos resultados exige experiência e aconselhamento genético, já que um laudo isolado pode ser facilmente interpretado de maneira equivocada.
O grupo chama atenção ainda para o impacto familiar provocado pelos testes. Um resultado positivo pode indicar risco para filhos, irmãos e outros parentes, tornando necessária a investigação genética em familiares. Além disso, descobrir uma doença hereditária pode provocar estresse, culpa, ansiedade e influenciar decisões relacionadas ao planejamento familiar.
Wladimir Bocca e Acary Bulle também lembram que existem limitações técnicas importantes. Algumas mutações, expansões de repetições, como ocorre em determinadas ataxias, e alterações estruturais podem não ser detectadas por todos os métodos de sequenciamento, exigindo exames específicos para confirmação.
Apesar desses desafios, Orsini e Acary destacam que a neurogenética trouxe benefícios significativos, especialmente nas doenças neuromusculares e do neurônio motor. Entre eles estão o estabelecimento de diagnósticos mais precisos, a redução da necessidade de exames invasivos, a possibilidade de orientar melhor o prognóstico, identificar pacientes elegíveis para terapias específicas e ensaios clínicos, além de fornecer informações fundamentais para o aconselhamento familiar.
Os neurologistas Dr. Marco Orsini e Dr. Wladimir Bocca, que atuam com doenças neuromusculares raras, também ressaltam os avanços proporcionados pela neurogenética tanto no diagnóstico quanto no desenvolvimento de tratamentos direcionados. Eles destacam a descoberta do Tofersen e do Jacifusen, terapias voltadas para formas hereditárias da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) relacionadas às mutações dos genes SOD1 e FUS, respectivamente.
Apesar desse cenário promissor, ambos reforçam que ainda existem limitações importantes. Wladimir Bocca explica que as variantes de significado incerto representam um dos maiores desafios da prática clínica.
“Alguns de meus pacientes acham ou podem achar que o incerto pode ser a certeza de algo que não existe”, afirma o neurologista.
Marco Orsini destaca outro aspecto relevante: a penetrância incompleta. Segundo ele, uma pessoa pode carregar uma variante patogênica e nunca desenvolver a doença, dificultando a previsão do risco individual.
“Às vezes me pego imaginando e calculando se devo ou não solicitar a testagem”, comenta.
O especialista também chama atenção para a expressividade variável, situação em que uma mesma mutação pode provocar manifestações clínicas e prognósticos completamente diferentes, inclusive entre membros da mesma família.
Considerado um dos maiores estudiosos da área, Dr. Acary Souza Bulle Oliveira amplia a discussão ao destacar as implicações éticas dos testes genéticos. Segundo ele, além dos impactos sobre familiares que podem compartilhar o mesmo risco genético, existem importantes dilemas relacionados à realização de testes em crianças e às decisões sobre planejamento reprodutivo.
Para Acary, o impacto psicológico provocado por um teste genético pode ser profundo e exige acompanhamento especializado.
“Sem isso, há risco de interpretações equivocadas”, afirma o pesquisador.
Mesmo diante dessas limitações, os especialistas concordam que a neurogenética representa uma das áreas que mais evoluíram dentro da neurologia. O desenvolvimento de terapias gênicas, oligonucleotídeos antissenso e da medicina de precisão vem ampliando as possibilidades de tratamento para doenças que, até pouco tempo atrás, eram consideradas sem alternativas terapêuticas.
Para Marco Orsini, Wladimir Bocca, Acary Souza Bulle Oliveira e Eduarda Iennaco de Moraes Barbosa, o futuro da neurogenética é promissor, desde que o avanço científico continue acompanhado de discernimento, responsabilidade ética e aconselhamento adequado, tornando cada vez mais próxima a realidade de tratamentos personalizados para inúmeras doenças neurológicas antes consideradas impossíveis de tratar.



